Yoga e Religião - 2ª Parte

Já tive que responder a uma candidata a aluna se Yoga tinha alguma coisa a ver com determinada religião, pois ao que me pareceu era o que ela, ou o pastor dela achavam, e pelo que consegui perceber, essa suposta relação entre Yoga e religião não era uma coisa muito aprovada pela religião que ela segue.

Não; Yoga não é religião; mas o fato de ter surgido na Índia, um país onde a religião e a cultura estão intimamente ligados, faz com que as coisas pareçam um pouco confusas mesmo.

Muitos asanas possuem nomes de deuses, o deus Shiva é o pai do Yoga, e por aí vai, mas vejam só, isso são mitos que cercam a cultura Indiana e tudo o que vem da Índia.

O Yoga é uma doutrina, ou um sistema filosófico que tem como principal foco o autoconhecimento, o desenvolviemnto do indivíduo como pessoa, como ser humano, independente de sua opção religiosa. Como disse Sivananda, um ateu pode ppratica Yoga. Qualquer um independente de sexo, raça, idade, credo... TODOS podem praticar Yoga.

O Yoga serve de base para a vida, é um dos muitos caminhos que você pode seguir, ou melhor, considere o Yoga como a sua bagagem durante a viagem, independente do caminho (religião) que você vai seguir. Você sempre estará levando sua bagagem com você, e nela você tem roupas (ferramentas) para os momentos de frio, calor, enfim para todas as estações (ou emoções).

O Yoga vai com você aonde quer que você vá.

Acho que o principal medo de algumas religiões sobre seus adeptos ou seguidores conhecerem novas filosofias, ou métodos, ou o que quer que seja novo, é o medo de perdê-los. E se existe o medo isso significa insegurança e/ou falta de convicção em sua doutrina, seja ela qual for.

Daqui do meu mundinho, acho que quanto mais se aprende sobre a vida, sobre o mundo, sobre as pessoas, sobre religiões, sobre pontos de vistas diferentes, melhor para todos. E “todos” envolve do individual ao coletivo. Nunca acreditei que seguir uma religião estivesse ligado a tornar-se ignorante em relação a qualquer coisa por medo do que aquele conhecimento possa fazer em relação ao seu ponto de vista sobre o mundo, religião, ou sobre aspectos específicos da vida. Se as mudanças tiverem que vir, elas virão, e se for pelo Yoga. Nossa! Que sorte!

Sua religião, ou seu materialismo podem ser o seu caminho, mas o destino final... é encontrar um lugar inimaginável a qualquer um de nós, pobres mortais, um lugar que está dentro de nós mesmos, assim como o Yoga também está dentro de você, desde que você o adote como princípio de vida.

Então... se está tudo a mão! Ta fácil!

Boa viagem! E não esqueça a bagagem!

SAT CHIT ANANDA!

Yoga e Religião - 1ª Parte

Trabalho enviado para o IV Congresso Internacional de Professores de Yoga” Bertioga - SP – Brasil 16 a 23 de Novembro de 1973 Por: Yogacarya B.K.S. IYENGAR
No decurso de meus 40 anos de pratica de Yoga, todos, ocidentais e orientais, tem-me perguntado se Yoga é religião. E qual a ligação entre Yoga e Dharma. Este pequeno artigo se propõe a responder.

Yoga é uma Religião Universal

Vários escritores mencionam Yoga como uma arte, uma ciência ou filosofia. Não há dúvida, que, apesar de o Yoga ser tudo isto, é preciso enfatizar que ele é uma parte, uma parcela de qualquer Dharma verdadeiro, e não hesito em chamá-lo de religião universal.

O que é Dharma? O Mahābhārata nos diz:

“Aqueles que caíram, que estão caindo ou que estão para cair, aquilo que os escora, que os levanta e os traz de volta para si mesmos isto é Dharma ou religião”.

Esta queda pode ser nos planos físico ou mental, moral ou espiritual. Os antigos sábios falaram deste Dharma, como Sanāthana Dharma. Sanāthana significa eterno, e Dharma significa o modo de vida, a purificação através de uma disciplina perfeita, determinando cada movimento de ação para o aperfeiçoamento dos indivíduos, da sociedade ou do estado. Assim, Sanāthana Dharma significa aquilo que não tem começo nem fim; aquilo que é eterno e imutável. Apesar deste Dharma ser dividido em várias categorias, referimo-nos ao Ātma Dharma e Śarīra Dharma. Aqui, Dharma é dividido da seguinte maneira:

SANĀTHANA DHARMA – Quadro I
A importância do Śarīra Dharma
As citações feitas ilustram amplamente a grande importância de bem-estar físico para o prazer de viver e para a libertação de todos os desejos Mokṣa. Uma criatura fraca não pode atingir o Ātman; nem qualquer Sādhana é possível sem um corpo perfeito. Yoga Śikhopaniṣad diz que somente um corpo limpo de sua natureza tamasica pode ser chamado de templo. Negligenciar o corpo na procura do Eu Maior é um pecado.Vairāgya ou renúncia, como geralmente é compreendida, não nos leva ao conhecimento do “eu”. A renúncia ao corpo acontece quando todos os órgãos e faculdades estão sob completo controle; e quando ela é transformada no estado do eu (self), então, sua verdadeira entidade é esquecida. Esta é renúncia no seu sentido verdadeiro (exercendo-a e, ao mesmo tempo, experimentando o estado da não-existência). Mas, até então, o corpo não pode ser negligente. Esta é a razão pela qual nossos sábios deram uma importância muito grande a prática do Dharma no Yoga, que é Śarīra Vidyā.

Yoga é para todos
O Yoga Cintāmaṇī nos diz que Yoga pode ser praticado por todos, sem discriminação de casta, credo, cor ou sexo. Mesmo a idade não é uma barreira – moços e velhos podem praticá-lo do mesmo modo. O Haṭha yoga pradīpikā também afirma que má saúde não é uma barreira, desde que, saudáveis e doentes, o pratiquem com benefícios para si mesmos. O Yoga é classificado da seguinte maneira:

YOGA SĀDHANA – Quadro II
Quando o Sādhaka pratica Yoga intensivamente, acende a luz do “eu”, que leva ao Senhor. Esta luz do “eu” é a verdadeira religião. Assim, Yoga pode ser descrito, sem hesitação como a religião mais elevada, como uma senda para a verdadeira vida religiosa, interligando os três caminhos, karma, bhakti e jñāna, para o bem do individuo e da sociedade.

Por exemplo: Yama ou a ética social tem cinco aspectos: não violência, dizer sempre a verdade, honestidade, celibato e a não aceitação de presentes. Estas cinco virtudes são virtudes sociais, que podem ser observadas, independentemente de credo, cor, tempo, fronteiras nacionais ou sexo, em qualquer lugar do mundo. Niyama ou disciplina individual tem também cinco aspectos: pureza interior e exterior, alegria, fervor ardente, estudo do “eu” e submissão total ao Senhor. Estas são as virtudes individuais. Não são estas praticas corretas para qualquer indivíduo que viva na sociedade humana?

O corpo é a base ou o ponto principal para qualquer ação ou karma. Deveria ser conservado em condições ideais, puro e belo, porque é o templo do espírito. Quando, entramos em um templo, lavamos nossos pés e mantemos nossa mente em silencio para nos entregarmos ao senhor. O corpo também deve ser mantido limpo e silencioso, quando entramos no templo interior do “eu”. A disciplina não é, então, uma verdadeira senda do karma?

No Katho Upaniṣad o corpo é comparado a uma carruagem, o intelecto ao cocheiro, a mente às rédeas, os sentidos ao conhecimento, a ação aos cavalos, e os desejos aos pastos. O corpo, comparado à carruagem, precisa ser forte, saudável e harmonioso, sem essas qualidades, o entendimento, que é o cocheiro, não pode controlar as rédeas, ou seja, a mente, nem os sentidos. Quando todos eles estão sob controle, então o homem atinge seus quatro puruṣārthas: religião, poder, prazer e liberação.

O QUE É SAÚDE?

A saúde é algo que pode ser adquirido? A saúde não é comodidade, nem tampouco se livrar da doença implica em saúde. Saúde é aquele estado no qual se está em harmonia consigo mesmo. Isto compreende bem-estar físico, equilíbrio emocional e estabilidade intelectual. Também implica em estar em união com os que nos cercam e com o criador.

Patañjali enumera vários impedimentos que fogem ao controle da mente. Estes são: doenças físicas, entorpecimento mental, dúvida, descuido, preguiça física, egoísmo, credibilidade, isto é, crer facilmente em coisas que não são verdadeiras e apatia, ou seja, não fazer sequer tentativas, considerando a prática fora do próprio alcance. Além disso, depois de uma prática ardente, o sādhaka pode acreditar que o fim tenha sido alcançado. Novamente, o sofrimento, uma mente volúvel, vacilação ou instabilidade do corpo e do processo da respiração atuam como impedimentos. O remédio para estes quatorze impedimentos é o caminho dos oito degraus do yoga, estabelecido pelo grande Patañjali.

Além disso, não é possível seguir o caminho do Dharma se seus alicerces, isto é, a saúde do corpo, está ela mesma estremecida. Há dois tipos de Śarīra Sādhana: Sarvāṇga Sādhana (exercícios com todo o corpo) e Aṅgabhāga Sādhana (movimentos parciais do corpo). Os sistemas ocidentais exercitam o corpo somente em certas partes, mas o sistema yogui tonifica o corpo inteiro. No ocidente, somente o corpo grosseiro é exercitado enquanto no sistema yogui exercitam-se tanto o corpo grosseiro quanto o sutil. Nosso corpo tem cinco envoltórios: o anatômico, o fisiológico, o psicológico, o intelectual e o bem-aventurado. O corpo tem vários sistemas, tais como o circulatório, o respiratório e o nervoso, assim como articulações, glândulas e outras partes. No yoga estas partes são exercitadas e se mantém saudáveis, enquanto que nos sistemas ocidentais somente a parte anatômica é exercitada. O yoga, favorecendo uma boa circulação no corpo, elimina todas as toxinas e impurezas e conserva-o leve, alerta e saudável. O yoga pode também ser praticado por todos, como já foi dito no começo deste artigo, o que não acontece com os sistemas ocidentais; além disso, o Yoga necessita apenas de 3 x 6 pés de espaço, um cobertor e a vontade de praticar, enquanto os outros sistemas requerem maior espaço, equipamento e companhia.

O CAMINHO DO BHAKTI EM ĀSANA E PRĀṆĀYĀMA
O praticante de Āsana deveria sentir que cada postura é um veículo do Senhor, que está em todo lugar e também dentro de nós. Se o praticante se entrega à postura com tal atitude interior, Deus, que está dentro de cada um, deleita-se com essa submissão e o sādhaka pode permanecer por um determinado espaço de tempo na postura. Esta atitude não transforma então o Sādhana físico num Sādhana espiritual? Além disso, a rendição do corpo e do “eu” deste modo traz humildade. Em outros tipos de exercícios, talvez o ego predomine e, assim, o culto da personalidade é desenvolvido; na prática do Yoga, entretanto, pratica-se o culto da despersonalização.

Também o Prāṇāyāma desempenha um papel fundamental no desenvolvimento dos aspectos fisiológicos e psicológicos, proporciona energia, aumenta a força de vontade e torna o cérebro aguçado e alerta. O Prāṇāyāma tem quatro facetas: inalação, retenção na inalação, exalação e retenção na exalação. Nestes processos está enquadrado o Bhakti Marga. Enquanto inala, o sādhaka não deveria pensar que está inalado o ar, mas sim, o Senhor, sob a forma de respiração: na retenção, deveria sentir que o Senhor está com o “eu” individual. Ele deveria perguntar a si mesmo se pode ousar fazer intromissões ou provocar distúrbios quando o próprio Senhor está comungando com o “eu” individual. Na exalação, o “eu” individual sai e se entrega ao Senhor, que existe em toda parte. Na retenção após a exalação, o “eu’ individual já se entregou ao Paramātma e está em completa harmonia com ele. Como pode alguém perturbar tal estado? Com isto torna-se claro que o Prāṇāyāma praticado com esta atitude mental conduz a pessoa pelo caminho do Bhakti.

Os quatro degraus do Yoga: Yama, Niyama, Āsana e Prāṇāyāma são chamados Bahiraṅga Sādhana ou Sādhana externa. Prāṇāyāma e Pratyāhāra que levam a manter os sentidos e a mente sob controle são chamados Anṭaraṅga Sādhana. A mente e os sentidos são libertados do seu jugo das coisas externas. São atraídos para dentro e projetados no “eu”. A projeção purifica os pensamentos e os sentimentos e leva a realização de si mesmo.

ANTARĀTMA SĀDHANA E JÑĀNA MARGA OU O CAMINHO DO CONHECIMENTO
No caminho dos oito degraus do Yoga, os últimos três degraus, Dhāraṇā (concentração), Dhyāna (meditação), e Samādhi (completa unidade do Eu, desprovido de outros envoltórios) são conhecidos como Antarātma Sādhana. São tecnicamente chamados de saṁyāma ou integração: Há vários tipos de integração Śarīra Saṁyāma, Īndriya Saṁyāma, Prāṇā Saṁyāma, Mano Saṁyāma, Jñāna Saṁyāma e Ātma Saṁyāma. Tem-se que avançar passo a passo na prática do Yoga para atingir a integração completa.

Dhāraṇā é trazer um objetivo à concentração pelo poder da mente. Depois da concentração no objetivo, quando objetivo e sujeito estão unidos e não há diferença entre eles, eu, para descrever de um modo diferente, quando o meditador e o objeto no qual medita tornam-se um só, o estado de Dhyāna é alcançado. No Samādhi, sujeito e objeto desaparecem, e o Eu resplandece em primeiro plano sem nenhuma interferência do consciente. Permanecer nesta pureza prístina, na glória da unidade é Samādhi. Este estado onde corpo mente e intelecto se dissolvem, e somente o Eu brilha como o sol, é chamado Turīya Avastha. Assim como o mar é agitado na superfície, mas tranqüilo e sem movimento nas profundezas, assim é o estado de samādhi. Mesmo que um ser vivencie todos os movimentos do corpo e da mente, ele é, no intimo de si mesmo, calmo e quieto. Tal pessoa pode também ajudar o sofredor, pois ele mesmo, como a cânfora, tornou-se um ser dotado de chama. Ele tira um envoltório após outro, e permanece com o último, que é o EU MAIOR. Aqui ele permanece como o “eu” imortal. No momento em que o “eu” é esquecido ele atinge o estado mortal. Aqui o Yogui vive com o “eu” conhecido como o Mokṣa Sādhana. Não é este o estado mais elevado do Jñāna Sādhana? Não é também o Dharma Sādhana? Não é o próprio Dharma ele mesmo, já que a meta do Dharma é estar em união com o Ātma Marga? Mas se Ātma Marga é Dharma Marga, então o Yoga Marga é definitivamente também o Dharma Marga. Apesar de o Yoga Marga ter oito degraus, compreendendo Bahiraṅga Sādhana, Anṭaraṅga Sādhana e Antarātma Sādhana, depois de se ter atingido a completa integração não há diferença no Sādhana. Todos eles são um só.

Assim, o Yoga, como religião universal, abrange desde a disciplina do corpo até a disciplina do EU MAIOR. Do indivíduo a sociedade em geral e do mundo ao Senhor do Universo.

Os Corpos do Homem

Por Pedro Kupfer
A perspectiva yogi afirma que a anatomia do homem vá muito além da dimensão material do corpo físico. As filosofias Sámkhya e Vedánta coincidem com o Yoga nessa visão holística do homem. Segundo essa visão, o ser humano está constituído por três corpos superpostos bem diferenciados e que interagem constantemente: o corpo físico, o corpo sutil e o corpo causal. Esses três corpos funcionam como veículos para a manifestação do ser interior, o átman.

Cada corpo é um campo prânico que vibra em uma freqüência diferente. Como todos eles contém a alma, recebem o nome de corpo ou sharíra, embora não sejam corpos no sentido material.

1) O corpo físico denso ou sthúla sharíra é carne e osso, tecidos, células, moléculas e átomos. Serve como veículo para os outros dois e está constituído pelos cinco tattwas ou elementos: terra, água, fogo, ar e espaço; pelos cinco jñánendriyas ou órgãos dos sentidos: ouvidos, pele, olhos, língua e nariz; pelos cinco órgãos de ação: cordas vocais, mãos, pés e os aparelhos excretor e reprodutor. A ele corresponde o annamáyákosha, camada feita de 'alimento'.

2) O corpo sutil ou súkshma sharíra é invisível para o olho não treinado, mas pode perceber-se por outros meios, como veremos mais adiante. Está formado por três camadas ou koshas: energia, pensamento e conhecimento ou pránamáyákosha, manomáyákosha e vijñánamáyákosha; pelos cinco pránas ou ares vitais, pelos karmendriyas ou órgãos sutis de ação; e pelas quatro faculdades da individualidade ou antah karana: mente, ego, intelecto superior e consciência, ou manas, ahamkára, buddhi e chitta. O antah karana é o conjunto das funções que permitem ao homem conhecer refletir, interpretar e traçar o próprio rumo, à diferença dos animais, cuja conduta está pautada unicamente pelos instintos.


3) O corpo causal ou karana sharíra é o que dá sentido à existência dos anteriores. Está além da mente e da consciência e somente se pode experienciar através da introspeção profunda, usando como instrumento a meditação. É o receptáculo da alma individual, chamada em sânscrito átman, e a sua natureza é sat chit ánanda: verdade, consciência e bem-aventurança. Átman é a alma, o princípio auto-organizador do ser. O karana sharíra também inclui os cinco tanmátras ou elementos causais: cheiro, gosto, visão, toque e som.





Fonte: http://www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=368&secao=3021
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